Comportamento social e as fogueiras de hoje, um pouco de história

A cada crime ou noticiário policial amplamente divulgado pela mídia, acaba acontecendo um fenômeno cada vez mais corriqueiro: aglomeração de populares nas delegacias, presídios e lugares onde aconteceram os eventos. 

Até fatos estranhos como uma senhora que viajou mais de 400 km de ônibus só para berrar palavras de ordem contra o casal Nardoni quando de seus depoimentos (na época do indiciamento)  na polícia. 

O que justifica este atos? 

Aproveitei as minhas aulas de sociologia na Faculdade para pesquisar certos tipos de comportamentos similares na nossa história mundial da antiguidade. 

Porta Castello Tower.
Image via Wikipedia
Relembrando comportamentos medievais na época da inquisição, muitas denúncias contra "supostos" bruxos e feiticeiras eram feitos por populares que faziam pré-julgamentos baseados em opiniões pessoais e contra padrões diferentes do comportamentos dos denunciantes.  

Para ilustrar este comportamento vamos transcrever este trecho do site historianet  :

"..... Vejamos o caso de Vincenza Pasini, esposa de mestre Francesco de Giovanni de Montemezzo, idosos proprietários de terras no século XV, na cidade de Vicenza, norte da Itália, não muito distante da Modena de Chiara Signorini, citada por Ginzburg. Segundo registros da época, a Sra. Vincenza levava uma vida simples e honesta, devotada ao Senhor e a Sua Mãe Santíssima, pela qual alimentava uma devoção excepcional: seus dias eram ritmados por muita oração e boas obras; sua freqüência à igreja e às celebrações litúrgicas, e em especial sua caridade para com todos, faziam dela uma verdadeira cristã.

 Em duas ocasiões, 1426 e 1428, com a cidade assolada há anos pela peste, Dona Vicenza teve visões da Virgem Maria, que ameaçava com a continuidade da doença a não ser que se providenciasse a construção de uma igreja em sua homenagem. No mesmo ano de 1428, a construção foi iniciada e, até hoje, o Santuário de Nossa Senhora do Monte Berico recebe, todo primeiro domingo do mês, mais de 30 mil peregrinos.

Quais as diferenças existentes entre as visões da Virgem de Vincenza Pasini, que levaram à construção de uma monumental basílica, e aquelas de Chiara Signorini, que a enviaram para a prisão perpétua? Ambas se encaixam no protótipo da “divindade popular”, que ameaça, pune e agracia, conforme a vontade, necessidade ou súplica de sua interlocutora.

No entanto, longe de serem reconhecidamente uma devota e dedicada esposa de um velho proprietário de terras, a exemplo de Vicenza e Mestre Francesco, Chiara e seu marido são “dois camponeses malvistos, temidos pelos patrões, constantemente despedidos, que se vingam das injustiças de que são vítimas”. Sendo ambas levadas frente a Inquisição, suas condições sociais e a imagem que delas se fazia as precediam.

No caso da pia Vicenza, pouco importava que sua aparição impusesse a construção de uma basílica em sua homenagem, com todo o sofrimento e privações que isso pudesse acarretar, sob a pena da desgraça de toda a comunidade. Aquela que impunha que se prostrassem aos seus pés e a adorassem havia de ser a Virgem Maria. Para a malvista Chiara, entretanto, o ser que exigia a sua adoração por algo muito pequeno (doença e desconforto para a patroa injusta), não poderia ser a Virgem, mas única e exclusivamente o diabo. "       

Independente do julgamento de valor, até porque não entramos em questão jurídicas aqui, vejam quem a população julga antes dos fatos, mandando para fogueira (ou forca) "supostos"  criminosos aos olhos da população.

Conceitos errados na expressão Vox populi, vox dei : A voz do povo [é] a voz de Deus", é um velho provérvio erroneamente atribuído a Guilherme de Malmesbury no século vinte.

Outra referência ao termo é a carta de Alcuin para Charlemagne em 798, embora acredita-se que seu uso tenho sido feito mais tarde. A citação completa de Alcuin:

Nec audiendi qui solent dicere, Vox populi, vox Dei, quum tumultuositas vulgi semper insaniae proxima sit

Tradução para Português:

E essas pessoas não devem ser ouvidas por quem continua dizendo que a voz do povo é a voz de Deus, desde que a devassidão da multidão sempre está muito próxima da loucura

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2 Comentários

  1. Sensacional Geraldo.
    Excelente texto que permite a reflexão.
    Vivemos, de fato, momentos críticos em que a sociedade parece regredir seu comportamento.
    Abraços

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  2. É muito interessante suas comparaçoes. Infelizmente parte da população humana é desprovida de discernimento. Confusões acalentadas pelo povo pode contribuir para distorcer a verdade.

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